Estúdio NaCena: New Power Generation “in-the-box”

By in Música

Como um show para convidados da antiga banda do Prince no estúdio NaCena se transformou num produto para internet.

Uma coisa que muitos engenheiros de gravação e mixagem por vezes se esquecem é que o mais importante de qualquer trabalho é a música. Por vezes, uma performance incrível sobrepõe-se à qualquer limitação técnica e obriga os profissionais a quebrar a cabeça para garantir que aquele momento memorável não se perca por pequenos problemas de planejamento.

Ricardo Camera, diretor técnico do estúdio paulistano NaCena, passou por uma situação dessas, o que o obrigou a repensar seu fluxo de trabalho. “O Estúdio recebeu a antiga banda do Prince para ensaios da gig que homenageava a carreira do cantor e acabamos montando um Show-Ensaio para convidados na sala de gravação principal”.

Foi solicitado para o técnico da casa que fizesse uma gravação do áudio “sem compromisso”, somente para acompanhar um registro feito em vídeo, igualmente sem intuito comercial. “O que aconteceu é que no meio do show, a banda fez uma performance de ‘Nothing Compares to You’ que foi tão incrível, que surgiu a ideia de preparar aquele registro como um clipe para internet”, e foi aí que o desafio começou.

A banda – composta pelo baterista Gorden Campbell, o baixista Andrew Gouché, o teclista Dominique Taplin, a vocal Cassandra O’neal e o guitarrista e vocalista Max de Castro, além de um nipe de metais brasileiro com Josué Santos no Sax Tenor, Sidmar Vieira no Trompete e Denilson Martins no Sax Barítono – foi gravada em uma situação longe da ideal. “Como não havia intuito de trabalhar o áudio em pós, não tomamos alguns cuidados na escolha de microfones dedicados para cada instrumento ou um isolamento para a bateria, por exemplo”, explica Camera.

Com isso, o resultado final da gravação acabou trazendo uma quantidade enorme de vazamentos, sobretudo nos Over Heads da bateria e nos microfones dos vocalistas. “Percebi que esta Mix seria muito mais uma limpeza do que uma ação estética. Meu intuito era preservar a performance ao máximo dando mais clareza ao som”, afirmou o técnico.

In The Box

Apesar de o estúdio NaCena ser famoso em todo mundo pela enorme console analógica Ameck com canais Neve em sua sala principal, até por uma questão de tempo e custos, a mixagem foi realizada totalmente “in-the-box” na Sala 2. “Optei por este fluxo por uma questão de controle que o Pro Tools me permite e também por um desafio pessoal em conseguir fazer correções diretamente no software”, afirma Camera.

Sessão de Pro Tools do Estúdio NaCena

De acordo com o técnico, neste tipo de situação, onde os efeitos e plug-ins serão aplicados muito mais para correção, o Pro Tools é uma ferramenta essencial. “Hoje em dia, trabalhar 100% in-the-box não é pior nem melhor em termos de qualidade sonora. Além disso, a quantidade de controle em termos de ajuste de fase, e a possibilidade de trabalhar com plug-ins como compressores multi-banda, ajuda muito em mixes onde há esta enorme quantidade de problemas de vazamento”, explica.

O primeiro trabalho realizado pelo técnico foi de edição. Para reduzir os acúmulos de vazamento e acoplamentos em frequências chave, Ricardo Camera editou as trilhas de voz deletando todos os trechos em que a voz não estava sendo emitida por algum dos vocalistas. O mesmo foi feito com os canais dos tons de bateria. “Os elementos destes canais não precisam estar ‘abertos’ o tempo todo, já que não adicionam elemento musical ininterrupto. Desta forma, reduzimos o efeito de ‘Squelch’ criado pelo acúmulo dos vazamentos”.

Em seguida veio um intenso trabalho de equalização, com filtros passa-altas em quase todos os canais e reduções em frequências específicas. “Quando há muito vazamento, essa ‘sujeira’ tende a se acumular em algumas frequências chave, como 200 Hz, 500 Hz ou 600 Hz. Por isto estou aplicando atenuações nestes pontos também nos instrumentos ligados em linha (teclas e baixo).”.

Além das equalizações, Camera fez uso de Compressores Multi-Banda em diversos canais quando era necessário abrir um pouco de espaço para outros elementos mas sem matar o timbre dos instrumentos. Compressão convencional também foi aplicada para reduzir picos de sinal gerados pela movimentação dos músicos na performance, principalmente na voz e na bateria.

Em termos de estrutura da sessão, Camera possui uma arquitetura de “Color-Coding” bastante rígida, para garantir que qualquer mix feita no NaCena seja compreensível por qualquer um dos técnicos do estúdio. Ao todo foram 30 canais, já levando em conta as mandadas auxiliares de cada um dos elementos principais (Baterias, baixo, voz, teclas, metais e guitarra). “Gosto de separar os elementos em Buses Auxiliares de forma a agrupar os instrumentos antes de enviá-los ao Master Bus, desta forma posso aplicar efeitos específicos para cada instrumento como um todo”, afirma.

Falando em efeitos, como tratava-se de uma mix muito mais focada em correção, os únicos efeitos utilizados foram dois plate reverbs. O primeiro bastante acentuado na caixa da bateria para dar uma estética de “balada” estilo oitentista e uma geral, em um bus auxiliar só de reverbs para onde eram mandados os grupos de instrumentos, de forma a equalizar o som de sala entre todos os elementos.

“Houve um tempo em que era incomparável a qualidade do áudio de uma mixagem com Hardwares reais. Hoje isso já não existe mais, a capacidade do Pro Tools em termos de summing e principalmente a qualidade dos conversores subiu muito”, conclui Camera. Com a mix feita, o material agora vai para pós-produção de vídeo e deve estar disponível em breve no youtube da banda.

nacena.com.br

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Flávio Bonanome é jornalista e músico que eventualmente se arrisca como produtor. Atua cobrindo os segmentos de tecnologia para música há 10 anos, tendo trabalhado em diversas publicações e realizado a cobertura de mais de 300 shows. Atualmente Flávio é Coordenador de Redação da VP Group estando à frente de revistas como Panorama Audiovisual e Sound on Sound Brasil.